O Diagnóstico sobre Acessibilidades nos Museus da Rede Portuguesa de Museus é um contributo importante para conhecer melhor as condições de acessibilidade nos museus participantes da Rede.
Ainda existem poucos estudos sistemáticos sobre este tema em Portugal.
Por isso, importa reconhecer:
- o valor deste trabalho conjunto;
- a elevada participação dos museus da Rede;
- a relevância da informação recolhida.
O diagnóstico identifica também necessidades importantes, como:
- “a formação das equipas, incluindo as chefias”;
- “a criação de equipas internas dedicadas à acessibilidade”;
- “a criação ou o reforço de parcerias com organizações especializadas”;
- “a valorização da colaboração e do trabalho em rede”.
Estes resultados ajudam a definir prioridades e a preparar melhorias.
O diagnóstico sugere que, apesar do esforço demonstrado, muitos museus continuam a limitar-se às exigências mínimas de acessibilidade física. Em alguns casos, aparenta mesmo existir incumprimento das obrigações legais. Estas situações devem ser confirmadas e corrigidas.
Pensamos que o conhecimento, a capacitação e alguém com funções de coordenação destas matérias na equipa permitirão planear e executar as melhorias e mudanças necessárias.
Garantir o acesso antes de avaliar a procura
A referência à «baixa procura de públicos com deficiência» como obstáculo à melhoria da acessibilidade merece uma análise mais aprofundada.
Os estudos de públicos mostram que a frequência de museus é baixa em vários grupos da população. Esta realidade não é exclusiva das pessoas com deficiência.
Quando outros grupos apresentam baixos níveis de participação, não se propõe reduzir a programação que lhes é dirigida. O mesmo princípio deve aplicar-se às pessoas com deficiência.
Criar relações apoia a participação
A baixa participação pode resultar das várias barreiras existentes. Quando um espaço, serviço, atividade ou meio de comunicação não é acessível, muitas pessoas não conseguem utilizá-lo ou deixam de o procurar.
Por estes motivos, o investimento em acessibilidade não deve depender do nível atual de procura.
Primeiro, os museus devem garantir condições adequadas de acesso. Depois, devem promover a participação das pessoas com deficiência, tal como fazem com outros públicos.
Para isso, precisam de:
- criar relações continuadas com as pessoas com deficiência e com as organizações que as representam;
- mostrar de forma clara a relevância da sua oferta;
- desenvolver uma programação mais inclusiva;
- representar as pessoas com deficiência nos espaços, conteúdos e atividades.
Explicar a relação entre as barreiras e a baixa participação ajudaria a interpretar melhor os resultados. Reforçaria também uma ideia essencial: melhorar a acessibilidade cria condições para uma participação cultural mais ampla.
Partilhar o método do diagnóstico
Para reforçar a transparência, futuras edições poderão explicar melhor como o estudo foi realizado.
Seria útil partilhar:
- o questionário enviado aos museus;
- os critérios de avaliação;
- a forma de cálculo do Indicador Global de Acessibilidade;
- os restantes elementos usados na recolha e análise dos dados.
Esta informação ajudaria a compreender melhor os resultados e os limites do diagnóstico.
Ajudaria também investigadores, estudantes e outras organizações a reproduzir e aprofundar a análise, reforçando a transparência e a utilidade do estudo.
Complementar a autoavaliação com verificação técnica
O diagnóstico indica basear-se na informação dada pelos próprios museus. É importante complementar esta autoavaliação com uma análise técnica independente e especializada.
Esta verificação é particularmente importante quando estão em causa obrigações legais ou aspetos técnicos da acessibilidade.
Sem uma verificação independente, as respostas devem ser apresentadas como informação fornecida pelas instituições, e não como conclusões técnicas confirmadas.
Usar definições e critérios comuns
Termos como «acessível», «adaptado», «adequado» ou «escrita simples» podem ser interpretados de formas diferentes.
Futuras edições poderão explicar estes conceitos e indicar os critérios usados na avaliação. Esta explicação ajudará os museus a responder de forma mais consistente e facilitará a comparação dos resultados.
Distinguir entre obrigações legais e boas práticas
O diagnóstico deve distinguir claramente:
- as obrigações previstas na lei;
- as boas práticas que vão além das exigências legais.
A lei estabelece as condições mínimas de acesso. O conhecimento das barreiras e das soluções adequadas, com planeamento, permite alcançar melhores níveis de acessibilidade.
Os possíveis incumprimentos legais devem ser identificados e confirmados com clareza. As boas práticas, mesmo quando não são obrigatórias, devem ser reconhecidas e incentivadas.
Esta distinção ajudaria os museus a definir prioridades. Permitiria também separar as intervenções urgentes das melhorias que podem ser realizadas de forma progressiva.
Transformar o diagnóstico num plano de ação
A divulgação do diagnóstico cria uma oportunidade para definir prioridades de intervenção.
Os resultados deverão dar origem a um plano de ação para a melhoria contínua da acessibilidade na Rede Portuguesa de Museus.
Este plano deverá incluir:
- prioridades de intervenção;
- responsabilidades;
- recursos necessários;
- prazos;
- metas verificáveis;
- mecanismos de acompanhamento.
O plano deverá prever formas de corrigir o que estiver em incumprimento legal.
Os museus deverão também receber orientações e apoio técnico para concretizar as melhorias necessárias.
Acompanhar a evolução com dados comparáveis
Este diagnóstico é um ponto de partida importante. Esperamos que tenha continuidade.
A recolha regular de dados permitirá:
- comparar resultados ao longo do tempo;
- acompanhar a evolução da acessibilidade;
- identificar progressos e dificuldades;
- avaliar o impacto das medidas adotadas;
- apoiar políticas públicas mais informadas.
Alargar a análise a outras dimensões da acessibilidade
Futuras edições poderão também analisar:
- a acessibilidade dos websites e dos serviços digitais, incluindo o cumprimento das normas aplicáveis e a publicação da declaração de acessibilidade;
- a segurança e a deslocação de pessoas com deficiência em situações de emergência;
- as condições de trabalho de profissionais com deficiência;
- o uso mais sistemático de linguagem clara e de linguagem fácil;
- o braille, os materiais táteis e outros recursos de comunicação acessível.
A análise destas áreas daria uma visão mais completa das condições de acesso, utilização, trabalho e participação nos museus.
A lei estabelece as condições mínimas de acesso. O conhecimento das barreiras e das soluções adequadas, com planeamento, permite alcançar melhores níveis de acessibilidade.
Os possíveis incumprimentos legais devem ser identificados e confirmados com clareza. As boas práticas, mesmo quando não são obrigatórias, devem ser reconhecidas e incentivadas.
A Acesso Cultura reconhece o valor deste trabalho e mantém-se disponível para elaborar sobre as sugestões e reflexões apresentadas neste parecer.
Ana Braga e Isabel Bastos
Museólogas, Associadas da Acesso Cultura


Parabens desde já por esta sistematização resumida, muito útil e pragmática para quando se quer mesmo avançar de forma consistente com o desenvolvimento da acessibilidade numa instituição museológica (e não só!) Fico com muitas expectativas para ler os resultados deste estudo.
Obrigado pelo retorno. Na primeira frase do texto, tem um link para o relatório e resultados deste estudo.
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