Revisitação crítica – narrativas históricas.
O que podem fazer as palavras no museu?

No dia 4 de Setembro, a nossa associada Margarida Ferra representou-nos na Escola de Verão do Museu Gulbenkian. É com muito gosto que partilhamos a sua comunicação (cuja gravação pode ser vista aqui – Sessão 04 set, a partir de 1:34:42).

1.
Juntar palavras

Muito obrigada, em nome da Acesso Cultura, pelo convite dirigido para participarmos desta Escola de Verão.

A Acesso Cultura é uma organização que promove o acesso – físico, social e intelectual – à participação cultural.  Duas palavras que se juntam: Acesso e Cultura e entre elas, pessoas. Em 2016, na Conferência Anual da Acesso Cultura que teve lugar aqui na Fundação Gulbenkian, pude ouvir Martine Gosselink do Rijksmuseum falar sobre o trabalho com a linguagem nas tabelas das obras do museu, que removia termos hoje considerados ofensivos. Um processo de “descolonização” dos textos que me deixou fascinada pelas possibilidades que as palavras têm num museu. Pouco depois, juntei-me à Acesso Cultura e ano seguinte decidi estudar museologia.

E por isso também por poder estar de volta aqui e novamente a propósito das palavras no museu, com a Acesso Cultura.

Fernando Calhau, Sem título #490. Colecção do Centro de Arte Moderna – Gulbenkian

As palavras podem fazer acontecer coisas. Praticamos isso enquanto humanidade desde que falamos. Em meados do século XX, o filósofo da linguagem JL Austin escreveu um livro com um título feito de palavras simples: How to do things with words, onde sistematizou o conhecimento sobre aquilo a que chamou a performatividade da linguagem.

Simplificando muito, espero que não demasiado: esta performatividade acontece quando o que dizemos não é passível de ser considerado verdadeiro ou falso e, simultaneamente, altera a realidade, faz acontecer alguma coisa por ter sido dito. O exemplo mais usado é a de quem abre uma sessão ao dizer que está aberta, um juiz no tribunal, um professor numa sala de aula – alguém investido do poder para usar a palavra.

Falo disto porque acredito que os museus são lugares onde as palavras podem fazer acontecer alguma coisa. Não podemos estar no momento em que foram construídos, recolhidos, pensados os objectos que fazem uma colecção. Ao falarmos sobre eles escolhemos o que gostávamos que estes objectos dissessem sobre o seu tempo, sobre nós agora, sobre o mundo.

2.
Revelar a vida e criar sentidos

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Carlos de Oliveira é um poeta português que nasceu há cem anos. Viveu e escreveu no século XX. Os papéis que deixou estão guardados no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, perto de Lisboa.

Escreveu este poema em prosa onde diz: “as imagens latentes (…) entrego-as às palavras como se entrega um filme aos sais de prata”, (…) “numa pura suspensão de cristais, revelo a minha vida”.  

Os museus são lugares de revelação e de visibilidade. Nesse processo as palavras importam tanto como a iluminação e outros mecanismos de exposição.

Escolhemos através das palavras o que revelamos e o que silenciamos da história dos objectos, enquanto lhe damos nova vida. Ao serem vistas por outros olhos, são testemunhos do passado, agem sobre o presente, como os sais de prata reagem à luz.

Eu não queria trazer à conversa o que é visível e o que é latente, falando apenas para especialistas. O que me interessa nos museus é precisamente a comunicação com quem frequenta e também com quem ainda não entrou no museu. Interessa-me a ligação entre pessoas e pessoas ou pessoas e objectos através do discurso – é para isso que servem as palavras no museu.

Ligando pessoas e pessoas, pessoas e objectos, dando coerência a estes conjuntos, as palavras no museu revelam a vida, como dizia Carlos de Oliveira. E a vida, como sabemos, pode ter formas muito diferentes.

Vale a pena perguntarmo-nos nos nossos dias de trabalho: que vidas podem encontrar sentido no museu? Que pessoas nos visitam e se reconhecem nas histórias que contamos? Quem é que ainda não entrou no museu?

3.
Que palavras nos servem?

Turquia, Iznik, período otomano, c. 1580-1585
Cerâmica siliciosa, pintura sob o vidrado
Inv. 2240. Museu Gulbenkian.

Vindo aqui guiada pela pergunta «O que podem fazer as palavras num museu?» ocorrem-me dois projectos que o nosso anfitrião, o Museu Calouste Gulbenkian, desenvolveu nos últimos anos.

O projecto participativo O Poder da Palavra tem vindo a trazer ao museu pessoas que usam diferentes línguas. Histórias novas são contadas a várias vozes – vozes que vêm de fora do museu e que trazem palavras novas – algumas delas podem ainda ser ouvidas num podcast no site.

Do mesmo modo, as visitas A colecção Gulbenkian sai do armário dourado revelaram narrativas queer a partir de obras que estiveram sempre expostas no museu, mas interpretadas até aí através de leituras sobretudo focadas na História de Arte.

Dar uso às palavras para contar histórias é uma actividade social e cultural da humanidade com profundo impacto na vida de quem lhes dá a voz e de quem as ouve. Mais do que a interpretação das peças a partir dos interesses específicos da academia, as pessoas que visitam museus procuram sentido para reflectir sobre o que as rodeia e sobre o seu lugar no mundo e o tempo em que vivem.

4.
Matéria-prima para histórias

Fotografia: José Frade/EGEAC

Esta garrafa de Coca-cola está incluída na actual exposição da Casa Fernando Pessoa. “Porquê?” perguntam-nos muitas vezes. Não pertenceu a Pessoa, tão-pouco era consumida em Portugal na época em que viveu. Pessoa, que prestava serviço na empresa encarregue da introdução da marca em Portugal, em 1928, escreveu o slogan da campanha: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Nessa altura o regime político mudou e a bebida foi proibida em Portugal, onde só veio a comercializar-se depois da revolução de 1974. O slogan nunca foi usado para o propósito com que foi criado e, no entanto, circula como um provérbio. A garrafa na exposição da Casa serve-nos para falar sobre a vida de Pessoa como “trabalhador independente” (como se diz agora) e para contar parte da História do país. Trata-se de um objecto pouco interessante para os estudos pessoanos, mas que ganha um significado que muitas vezes surpreende os visitantes. Pela palavra, liga-se à vida das pessoas e ao tempo presente. Torna-se, assim, mais relevante.

5.
O que fica de fora

Por um lado, as palavras, poderosas, no museu criam significados unindo pontos dispersos, lançando novas perguntas sobre o que já aconteceu para nos trazerem as coordenadas de onde estamos agora.

Por outro lado, as palavras no seu poder performativo, na maneira como operam sobre a realidade, também contribuem para deixar partes da História por contar ou mesmo ocultá-las (de forma consciente ou inconsciente). Os discursos são sempre, em primeiro lugar, de quem faz uso das palavras. Nem sempre são de quem os ouve ou lê, de quem os recebe.

Quando o nosso discurso se centra em nós próprios, não procura um encontro com o outro. No caso dos museus, se nossa visão e interpretação se centrar nas mesmas vozes (nos especialistas ou nas pessoas das equipas, maioritariamente homogéneas) corre o risco de perder a coragem de procurar ouvir outras narrativas. Escapa-nos a curiosidade sobre outras narrativas e pontos de vista, perdemos a oportunidade de aprender com elas.

Fechando-nos ao mundo, que é diverso, saímos a perder. Perdemos, entre muitas outras coisas, a relação com o tempo presente.

Vale a pena perguntarmo-nos: o que nos falta saber? E será que queremos mesmo aprender outras coisas? Ou procuramos apenas a confirmação do que já sabemos e manter-nos confortáveis, sem grandes surpresas?

Jacques Ranciére, numa entrevista à revista Les Inrockuptibles, a propósito da ficção, das narrativas que circulam no nosso tempo, lembrou que «podemos ter histórias que constroem um presente dividido». São precisamente as palavras, as narrativas que com elas criamos, que nos permitem revisitar o passado de forma crítica. Não há apenas uma narrativa histórica, da mesma maneira que o presente é dividido.

Não esqueçamos que a unanimidade serve sobretudo quem tem a palavra (que aqui é sinónimo de poder).

6.
Palavras novas ou novos lugares?

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As palavras servem também para fazer perguntas.

Amanda Gorman, a poeta a quem coube o lugar de escrever e dizer o poema que inaugurou o mandato de Joe Biden escreveu:

“Se quisermos viver à altura do nosso tempo,
então a vitória não residirá na lâmina,
mas em todas as pontes que construímos.
(…)
É o passado em que entramos e a forma como o reparamos.”

Fazer perguntas pode ser um modo de reparar no passado. É certamente um modo de reparar o passado. Ao contrário do que diz o ditado, perguntar pode ofender. Mas quando se destapa uma ferida aberta, abre-se também a possibilidade de a reparar.

Trouxe estes versos também para abordar o desafio da tradução. O excerto que li vem da tradução que a Casa Fernando Pessoa, o pequeno museu onde trabalho, encomendou à poeta Raquel Lima – poeta do slam, como Amanda, igualmente negra e ativista. Questões de direitos fazem com que não possa circular agora, circula apenas a versão publicada no livro. Perdemos sempre todos quando só pode circular uma versão de um texto, quando só podemos servir-nos de certas palavras para interpretá-lo. As versões únicas, as leituras únicas, são pouco interessantes porque não criam espaço para o que é novo.

A partir deste exemplo, podemos pensar na responsabilidade dos museus, e das pessoas que neles trabalham, nas palavras que dizem e escrevem sobre as peças e obras do passado, procurando lidar (ou não lidar) com as feridas que mantivemos cobertas no mausoléu.
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Nem sempre acertamos, nem sempre temos consciência da nossa responsabilidade. Junto a estes objectos expostos no Museu Nacional de Arqueologia em 2017 estava exposta uma “coleira de pescoço” . A exposição aconteceu no âmbito do projecto Testemunhos da Escravatura, quando Lisboa foi Capital Ibero-Americana de Cultura. A tradução para inglês da coleira (que não vemos aqui), foi “colar” (necklace). Sentimos com facilidade esta escolha como uma dupla ferida, sobre a ferida do passado, a nossa falha no presente.

Da mesma forma, podemos trazer à consciência que pessoas ligadas ao movimento Black Lives Matter têm manifestado a sua preocupação (ou mesmo objecção) em relação à utilização de expressões que incluam o termo matter. Consideram que este uso, noutros contextos, pode contribuir para uma banalização da sua mensagem. As formulações que incluem “matters” não são novas, mas desde 2020 que nos soam de uma forma muito particular.

Museu da Língua Portuguesa, São Paulo. Fotografia: Ana Mello

As palavras não têm poder em si, são poderosas quando estão em uso, quando fazem parte dos nossos corpos: são ditas, escritas, ouvidas, lidas. São usadas por pessoas e dirigem-se a pessoas.

E, no entanto, às vezes não são suficientes e não chegam a toda a gente. É nessa altura que se inventam palavras novas.

O Museu da Língua Portuguesa, que reabriu recentemente em São Paulo, foi criticado por ter procurado na sua comunicação usar uma linguagem neutra, escolhendo terminações com e, minimizando as variações de género. Este Museu reparou que há pessoas que precisam de comunicar deste modo e quis incluí-las no seu discurso, dirigindo-se também a estas pessoas [repito pessoas para não dizer eles ou elas]. O Museu escolheu revelar estas formas do nosso tempo e não deixar novas palavras para trás, conservando-as.

7.

Fechar com poesia

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Novamente a literatura, sempre a literatura. Trago um poema que Emily Dickinson (poeta dos Estados Unidos do século XIX) deixou escrito num envelope aproveitando espaços em branco. A lembrar que, quando é preciso, as palavras são como a água: podem ocupar espaços vazios, preencher silêncios.

Deixar os factos para trás pode trazer más consequências: um sonho facilmente se torna num pesadelo.
Usemos as palavras para manter os factos connosco, revelar a vida.

Ou dar-lhes novas vidas: inscrevendo-as no presente, levando-as para o futuro.

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