Denise Pollini, associada da Acesso Cultura, recebeu uma bolsa para participar na conferência anual da NEMO – Network of European Museum Organisations, que se realizou nos dias 26 a 28 de Outubro de 2025 em Horsens (Dinamarca). O tema era “Who cares? Museums, wellbeing and resilience”. Denise partilha connosco as suas reflexões sobre o que foi discutido na conferência.

“Who cares? Museums, wellbeing, and resilience.”
Conferência anual da NEMO – Network of European Museum Organisations
26-28 Outubro 2025, Horsens, Dinamarca

“Embora possa parecer paradoxal,
está claro que não fazer nada conduz a algo,
e fazer algo conduz ao nada[1].”
Francis Alÿs

Pela inutilidade dos museus

A Conferência da Network of European Museum Organisations (NEMO), em Horsens, Dinamarca, constituiu um excelente exercício de reafirmação da minha crença no poder dos museus, mas não pelos motivos diretos da conferência, e sim, justamente, naquilo que, em minha análise, a conferência deixou escapar entre seus dedos: a possibilidade de os museus serem essenciais por si mesmos.

Extremamente bem organizada, a conferência que teve por tema “Who cares? Museums, wellbeing, and resilience” começou com o Fórum, circunscrito aos afiliados da NEMO, na tarde de 26 de outubro. Guiado por Julia Pagel, Secretária-Geral, e pelos  membros executivos da entidade, este encontro serviu de introdução ao tema. De acordo com Pagel, um dos motivos para a escolha foi a relevância do tópico na atualidade:

“Ouvimos o tema do bem-estar e da resiliência a surgir uma, duas, quatro, dez, cem vezes, e percebemos que precisamos de um momento para reunir estes projetos, as ideias, mas também as muitas questões que surgem com eles. E foi por isso que decidimos realizar a conferência. E, se me permitem acrescentar, claro, porque somos uma organização europeia e vemos o mesmo a acontecer no âmbito das políticas culturais europeias. Portanto, a saúde mental e o bem-estar são temas importantes neste momento, muito visíveis a nível europeu.”[2]

O dia seguinte, aberto ao público em geral inscrito na conferência, teve como keynote speaker Elizabeth Merritt (USA), Vice-Presidente da área de Visão Estratégica da American Alliance of Museums e fundadora do Center for the Future of Museums. A fala de Merritt teve como título “Envisioning the future of health and wellbeing” e apresentou sua visão de três principais eixos de futuro para os museus:

1º) Através da Tecnologia / data;
2º) Conexão humana;
3º) Como uma “nova infraestrutura dos cuidados.”

O uso da tecnologia, em seu desdobramento no uso de dados merece atenção, porém, dado o tema da conferência, eu gostaria aqui de estender alguma reflexão sobre o que poderia significar a participação dos museus em uma “nova infraestrutura de cuidados” a partir das palavras de Merritt durante entrevista feita a Claire Bown para o PodCast “The Art Engager[3]” logo após a sua fala como keynote speaker:

“Temos uma riqueza de dados a serem apresentados nesta conferência sobre os conhecidos benefícios para a saúde de estar num museu. Mas e se isto fosse personalizado e recebesse um pouco de assistência humana, para que se pudesse dizer: ‘Eu sei que quando for ao museu, haverá pessoas na receção para me vender bilhetes e pessoas para me ajudar a encontrar o caminho. Mas também haverá pessoas com formação em saúde mental, que poderão tirar o máximo partido da minha experiência, dando-me um feedback individualizado[4]”.

MInha principal reserva diz respeito à pergunta: o que constituiria ser “treinado em saúde mental”? Em meu entender, o treinamento em saúde mental exige estudos formais e uma prática supervisionada de perto por professores/mentores. Diante disso, outras duas questões  se colocam: estarão os museus, como instituições, dispostos a promover uma formação de tal envergadura, quando o que consta das estatísticas é justamente o contrário,[5] uma terceirização e precarização cada vez maiores dos trabalhadores de museus? A outra questão que se impõe é: o que constituiria este “feedback individualizado”?

Vivenciar, em uma exposição, a ocorrência de uma crise psicótica de um visitante é extremamente revelador sobre os impasses quanto à possibilidade de o espaço de um museu — mesmo nas condições mais favoráveis e com profissionais mais qualificados na prática da mediação — poder oferecer um continente para receber um conteúdo psicoterapêutico.[6] Minha experiência pessoal assinala que o museu oferece não um espaço terapêutico, mas outro espaço, e é neste outro espaço, ponto, sem a necessidade de adjetivos adicionais, que reside a riqueza dos museus. E cada vez que sentirmos a necessidade de acoplar ao museu adjetivos e argumentos de relevância, estaremos a diminuir, e não a acrescentar, valor à experiência do museu.

Financiamento para a “prescrição museal”

O que transpirou durante toda a conferência é a possibilidade da  “prescrição museal” se apresentar como mais uma fonte de recursos aos museus em uma realidade de cortes cada vez maiores na área do financiamento da cultura, o que pode ser percebido por outro trecho da entrevista com Julia Pagel:

“Penso que temos uma grande vantagem estratégica, que é o facto de nós [museus] sermos grandes infraestruturas culturais em todo o mundo. Há um museu em quase todo o lado, o que nos dá uma vantagem incrível para estarmos realmente perto de onde as pessoas estão, de onde estão as comunidades, de onde as necessidades estão a surgir. Mas, claro, isso traz consigo muitos desafios que precisamos enfrentar e novos perfis que o museu precisa ter para ser esse lugar. E acho que também é preciso ter muito claro que estamos na fase da prevenção e que a prevenção deve ser um dos pilares do que significa cuidados com a saúde hoje em dia. Isto pode ser traduzido em dados e em dinheiro, pois é muito menos dispendioso prevenir doenças do que adoecer e precisar de cuidados. Por isso, acho que precisamos nos posicionar neste setor de prevenção[7].”

Este conceito é reforçado quando Merritt evoca a possibilidade do museu “melhorar” um paciente “a partir de dez visitas ao museu,” pois mais adiante na mesma entrevista Merritt comenta:

“As crianças já frequentam museus em visitas escolares onde aprendem sobre história ou história da arte. Podem ir aos museus para aprender sobre empatia, resposta emocional, autorregulação e competências socioemocionais. Os museus sabem ensinar estas coisas. E se as escolas considerassem os museus como um local para integrar isto no currículo, o impacto seria enorme. Uma das coisas que me encantou nesta conferência foram os inúmeros exemplos de recomendações para que os museus façam parte do sistema de saúde, com médicos e outros profissionais da área, que poderiam dizer: “Talvez queira ir a um museu. Aqui fica uma recomendação: uma visita a um museu por semana durante as próximas 10 semanas e sentir-se-á melhor.[8]

A Consultora em Gestão e Comunicação Cultural e Directora Executiva da Acesso Cultura, Maria Vlachou, em seu artigo “Cultura prescrita,” publicado há quase um ano, janeiro de 2024 no blog “Musing On Culture[9]” sintetiza de forma clara o conundrum ao qual tal situação coloca os museus e teatros sob a lógica da prescrição cultural em termos das expectativas de resultados: “Se o paciente não melhorar, a culpa será do espectáculo ou será aumentada a dose?”

A ideia da inclusão dos museus no sistema de saúde me leva, forçosamente, a questionar a capacitação necessária para desempenhar ações na área da saúde mental, seja em um consultório, seja em um museu. A questão da chamada “Análise Leiga” remonta aos discípulos de Freud e teve o seu mais notório caso em 1926 a partir de uma queixa de um ex-paciente de Theodor Reik, analista discípulo de Freud, mas que não era formado em medicina. Freud defendeu veementemente o direito dos chamados “analistas leigos” e publicou, ainda no mesmo ano o texto “A questão da análise leiga: Diálogo com um interlocutor imparcial”[10]. Na defesa de Reik, Freud afirma que: “Charlatão é quem empreende um tratamento sem possuir os conhecimentos e qualificações necessários” (Roudinesco & Plon, 1997: 636). Assim, o cerne da questão à qual Freud se endereça não é realmente a prática da psicanálise por não médicos—ou por todo aquele que assim o desejar — mas a própria questão sobre o que constituiria uma efetiva formação psicoanalítica e uma “preparação para o exercício da psicanálise”  (Ibidem). Em suma, ao defender a “análise leiga”, Freud reafirma a necessidade de uma formação específica para o exercício da psicanálise, o que, obviamente, exige etapas de formação, acompanhamento pelos chamados didatas e uma fase intensa de treino supervisionado.

A relação entre a arte e a psicoterapia tem uma longa história, sendo  Carl Gustav Jung um expoente teórico essencial. No Brasil, a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) integrou, desde os anos 1940, a prática artística a um contexto terapêutico. Em 1952, Silveira fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, que ainda hoje preserva o acervo de obras produzidas por seus pacientes (sobretudo esquizofrénicos) no atelier de modelagem e pintura fundado pela instituição. No entanto, é escuso sublinhar que, nesta história, a prática artística é o meio, uma metodologia para a expressão de conteúdos terapêuticos/psicanalíticos; portanto, a arte está a serviço de um propósito clínico definido.

A “prescrição museal” obviamente oferece aos museus novas fontes de financiamento e, em Portugal, esta questão já tem alguma história. Em 2014, o Governo português, em sintonia com a política cultural da União Europeia, desenvolveu o projeto “Parcerias para o Impacto”. Nesta linha de financiamento, o governo apoiava “a criação e crescimento de projetos de inovação social, promovendo a colaboração entre o setor privado e a economia social através de cofinanciamento com investidores sociais, visando resolver problemas sociais prioritários em áreas como Inclusão Digital, Justiça, Saúde e Emprego, com foco em resultados mensuráveis e pagamentos por impacto.[11]

Uma quantidade significativa de projetos na área da cultura com cariz social foram contempladas em seu primeiro ciclo, dentre estes, posso citar três nos quais estive envolvida em desenho inicial e concretização do mesmo em seu primeiro ano,[12] os projetos “Janelas para o Mundo”, “Olhares Inclusivos” e “Con(s)cienciarte,”projetos desenvolvidos pela Fundação de Serralves, no Porto, nos quais a inclusão cultural por intermédio da mediação cultural atuou como mecanismo para a transformação social.  Enfocando, respetivamente, os problemas sociais da reincidência criminal no contexto prisional, da exclusão social de pessoas com deficiência e do insucesso e do abandono escolar precoce, estes projetos obtiveram, em sua totalidade, apoio governamental de €547.243,00. Os três projetos requeriam uma extensa participação de entidades externas no que tange à medição do impacto social dos respectivos projetos, exigência de grande peso na avaliação das propostas em sua fase de concorrência, mas também na de execução.

É extremamente louvável que cerca de meio milhão de euros sejam investidos nas rubricas da socialização no contexto prisional, da inclusão social das pessoas com deficiência e no problema do abandono escolar. No entanto, em projetos como estes exemplos e em muitos outros contemplados nesta linha de financiamento as exigências no que tange à dimensão de mediação de impacto do projeto são tão pesadas em termos de orçamento e na exigência de que estes projetos sejam desenhados a partir de uma lógica de medição que ouso afirmar que a ordem dos fatores me parece invertida. A pressão por medir algo que muitas vezes é da ordem do não mensurável — mas que, não sendo mensurável, oferece justamente uma riqueza para além do que pode ser enquadrado na planilha de Excel — “pesa demais” no desenho dos projetos, o que, eventualmente, poderá comprometer justamente a sua potência de transformação.

O sociólogo da cultura, Pascal Gielen, faz uma importante reflexão sobre esta questão em nível dos programas europeus no texto “Culturing Commoning Culture. Creative Europe: 0.14% for Democracy[13]” nele, Pascal observa que entre 2014 e 2020 apenas 0.14% do orçamento europeu foi gasto na área da cultura (Ciancio 2020) e destes, entre 10% e 20% são gastos em documentação, relatórios e legitimação.

De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “prescrição” é definida como o “ato ou efeito de prescrever (estabelecer, ordenar ou indicar algo formalmente), ordem, preceito, receita médica e, no âmbito jurídico, a extinção de um direito ou de uma pena.” A etimologia da palavra remonta ao latim derivado de praescribere (“prescrever”, com prae- indicando “antes” e scribere “escrever”), indicando uma inscrição ou ordem prévia no direito romano.

Portanto, a ideia de prescrição implica um resultado a ser alcançado ao final de uma ação decorrente da prescrição. Como educadora com mais de vinte anos na área dos museus e, uma obcecada pela problemática dos “museus neoliberais,” considero que museus deveriam fazer o caminho oposto de sempre se adequarem até a última alínea à lógica de avaliação do mercado, e questionar justamente esta lógica de prescrição e de avaliação de resultados de acordo com métricas estabelecidas, tendo por premissa determinados resultados pré definidos, sob o risco de subtraírem a sua própria potência.

E a frase do artista belga Francis Alÿs não deixa de voltar à minha mente, como uma premonição, e penso que os museus constituem um dos poucos espaços/situações nos quais “fazer nada conduz a algo” e é justamente esse algo que não pode ser medido a priori e que perdemos cada vez que tentamos fazer do museu um caminho, uma ferramenta para algo que não a experiência do museu em si.

[1] “Though it might seem paradoxical,
it’s clear that making nothing leads to something,
and making something leads to nothing.”
Francis Alÿs

[2] “You hear the topic of wellbeing and resilience come up once, twice, four times, 10 times, a hundred times, and we realize that we need some kind of central moment to bring these projects, the ideas, but also the many questions that come with it together. And this is why we decided to do the conference. And if I may add, of course, because we are a European organization and we see the same thing happening on European cultural policy level. So mental health and wellbeing is a strong topic at the moment, very visible at European levels.” https://podcast.artengager.com/episode/who-cares-museums-wellbeing-and-resilience 03´42´´ Acessado em: 13/11/2025.

[3] https://podcast.artengager.com/episode/who-cares-museums-wellbeing-and-resilience

[4] “We already have such a wealth of data that’s being presented at this conference about the well-known health benefits of being in the museum space. But what if that were personalized and got a little human assist so that you could go and say, I know that when I go to the museum, there´re gonna be people at the front desk to sell me a ticket, and there are going to be people helping me find my way. But there they’re also going to be the people there who are trained in mental health, who might be able to make most of my experience by giving me some one-on-one feedback.” 00´10“ acessado em: 13/11/2025.

[5] No momento que termino este texto me deparo com a notícia: “No Louvre, a greve foi aprovada por unanimidade pelos funcionários; o museu estará encerrado a partir desta segunda-feira de manhã.” publicada no jornal Le Monde em 15 de dezembro de 2025. O subtítulo da manchete indica: “Reunidos em assembleia geral na segunda-feira, os responsáveis ​​do museu parisiense votaram, segundo os sindicatos CGT e CFDT, favor de uma ´greve renovável´ para protestar contra a ´deterioração´ das suas condições de trabalho´”
https://www.lemonde.fr/culture/article/2025/12/15/au-louvre-la-greve-votee-a-l-unanimite-par-les-salaries-le-musee-ferme-a-partir-de-ce-lundi-matin_6657590_3247.html

[6] Evento ocorrido no “Museu de Arte Brasileira” em São Paulo, Brasil, em 2001, durante a exposição “No Tempo dos Faraós.“

[7] “I think we have a great strategic advantage, and that is that we [Museums] are large cultural infrastructures across the globe. There is a museum almost everywhere, and that I think gives us an amazing advantage to really be close to where the people are, to where communities are, to where needs are emerging. But of course, that comes along with many challenges that we have to address and new profiles that the museum needs in order to be that place. And I think what we also have to have very clear is that we are at the prevention stage and making this prevention one of the say, cornerstones of what healthcare means nowadays. That can be translated into data and into money because it’s way less expensive to prevent from becoming ill, falling ill than to be ill, and then having to be cared for. So I think we, we really need to position ourselves in that preventive section.” (grifo da autora) https://podcast.artengager.com/episode/who-cares-museums-wellbeing-and-resilience 05´06´´Acessado em: 13/12/2025

[8] “Children already routinely go to museums for school trips where they learn about history or art history. They can be going to museums to learn about empathy and emotional response and self-regulation, social and emotional skills. These are things, museums know how to teach. And if schools thought of museums as a place to integrate that into their curriculum, that could be very powerful. One of the things I’ve been delighted to see at this conference is so many wonderful examples of prescriptions on demand for museums to be actually in the care system of doctors or healthcare providers, so that they would be saying, maybe you want to go to a museum. Here’s a prescription. One museum visit a week for the next 10 weeks and you will feel better.”

[9] https://musingonculture-pt.blogspot.com/2024/01/cultura-prescrita.html#more

[10] Publicado em português como “Obras Completas, Freud (1926 – 1929) – O futuro de uma ilusão e outros textos,” Companhia das Letras, São paulo,  2014.

[11] https://inovacaosocial.portugal2020.pt/financiamento/parcerias-para-o-impacto/

[12] Minha participação nestes projetos foi intenrrompida pela pandemia e pelo meu desligamento laboral da Fundação de Serralves em 2021.

[13] In De Tulio, M. F. (Ed.). (2020). Commons: Between dreams and reality. Creative Industry Kosice.

Referências

Ciancio, Guiliana. 2020. “Between cultural participation, trust and policy perspectives: the case of the Creative Europe programme Experimenting success and failures of co-imaginative politics”. In Cultural Policies In Europe: a Participatory Turn? Edited by F. Dupin-Meynard, L. Bonet, G. Calvano, L. Carnelli, E. Négrier & E. Zuliani. Toulouse: Les Editions de l’Attribut.

De Tulio, M. F. (Ed.). (2020). Commons: Between dreams and reality. Creative Industry Kosice.

Freud, Sigmund (2014). Obras Completas, Freud (1926–1929) – O futuro de uma ilusão e outros textos, Companhia das Letras, São Paulo,  2014.

Gielen, Pascal (2020). “Culturing Commoning Culture. Creative Europe: 0.14% for Democracy” in, De Tulio, M. F. (Ed.). (2020). Commons: Between dreams and reality. Creative Industry Kosice.

Roudinesco & Plon (1997). Dicionário de Psicanálise. Jorge Zahar.

Vlachou, Maria. “Cultura prescrita.” Em Musing on Culture, 3 de janeiro de 2024. https://musingonculture-en.blogspot.com/2024/01/culture-prescribed.html