Prémio Acesso Cultura – Mickaella Dantas 2026
“CORDÃO” – Coro de Doentes e Amigos Oncológicos
O projecto “CORDÃO” é um coro de doentes e amigos oncológicos que se distingue pela clareza da sua missão e pela delicadeza com que a transforma em prática artística, social e humana. Reconhecemos, neste projecto, uma prática cultural necessária, capaz de acolher momentos difíceis, criar pertença e construir comunidade.
“CORDÃO” parte da vivência oncológica, tantas vezes marcada pela solidão, e transforma-a num espaço comum. Reúne pessoas atravessadas pela doença e por quem as acompanha de perto. Importa-nos sublinhar que este projecto não nasce de uma ideia abstracta de inclusão: trabalha com corpos, vozes, fragilidades e alegrias reais, sem reduzir ninguém à doença. O canto surge, então, como uma prática continuada e partilhada, capaz de criar confiança e devolver presença a quem tantas vezes vive a dor de forma demasiado privada.
Premiar o “CORDÃO” é reconhecer um projecto musical e comunitário de enorme relevância. Mas é, também, afirmar que projectos como este precisam de condições para continuar: tempo, acompanhamento, equipas, recursos e uma rede de apoios públicos e privados que compreenda o seu verdadeiro impacto. Que este prémio possa contribuir para reforçar essa continuidade, durante muitos anos.
Teatro do Bairro Alto
Nas avaliações individuais das três juradas, o TBA apareceu com muita clareza como um dos projectos a distinguir este ano. Isso diz-nos que conquistou um lugar próprio, reconhecível e necessário. Um lugar que importa valorizar e defender.
O município confiou-lhe a missão de ser uma casa para a criação contemporânea e experimentação. Essa missão atravessa as escolhas artísticas e as práticas: no primeiro camarim acessível do país; na utilização de linguagem inclusiva; no trabalho continuado de mediação; na atenção às condições concretas que permitem que mais pessoas possam entrar, permanecer, participar e sentir que aquele lugar também lhes diz respeito.
O TBA mostrou que a acessibilidade não tem de ser uma camada acrescentada no fim. Pode estar no centro de uma instituição, atravessando a comunicação, a arquitectura, o acolhimento, a programação e a relação com artistas e públicos. No caso do TBA, nasce também de um modo de trabalho participativo, pensado colectivamente por uma equipa.
O TBA cumpriu e cumpre essa missão. O momento em que recebe este prémio é igualmente significativo: fala-se hoje de um projecto cuja continuidade não pode ser dada como garantida e cuja ausência deixaria uma marca real na cidade.
Premiar o TBA é, não só reconhecer um percurso, como também afirmar uma ideia de cidade: uma cidade que valoriza a criação contemporânea, entende a cultura como espaço de encontro, pensamento, acesso e experimentação, e sabe que há instituições cuja importância vai muito para lá da soma dos espectáculos que apresentam.
Esta avaliação é, por isso, também uma defesa da sua continuidade. Porque a questão não é apenas saber se esta cidade ainda tem este teatro. É afirmar que Lisboa precisa de teatros assim.
Jardins do Bombarda – Centro Cultural e Comunitário
No que é agora o seu terceiro lar, os Jardins do Bombarda – Centro Cultural e Comunitário renasceram num lugar onde Lisboa guardava os seus esquecidos. Num antigo hospital psiquiátrico, encerrado desde 2011, a cooperativa Sou Largo criou algo diferente de um espaço para públicos: criou um espaço com pessoas. A biblioteca foi construída pela comunidade. O forno é gerido pelos vizinhos. As decisões tomam-se em assembleia.
Este prémio reconhece que, para o acesso à cultura, não basta ter uma porta aberta. É necessário estimular a pertença, a decisão e a construção conjunta de um projecto em comum. Os Jardins do Bombarda provam que isso é possível. As utopias – como eles próprios escrevem – estão sempre em construção.
Na sua origem, a palavra “utopia” significa «não-lugar» ou «lugar nenhum». A utopia é, por conseguinte, uma ideia móvel: pode construir-se em qualquer sítio. E é por isso mesmo que as utopias continuam a ser necessárias: porque nos ajudam a imaginar, construir e defender lugares onde todas as pessoas possam pertencer. Lugares que resistem ao que ameaça a esperança, o cuidado, a participação e a vida em comunidade.
Menções Honrosas
“Som Táctil” por MãoSimMão & P 06 Studio+SSArquitectura
“Som Táctil” é um dispositivo de escuta expandida que utiliza a vibração sonora para estimular a sensibilidade táctil. Esta experiência sonora, que converte o som existente no ar em vibração física, tornando-o perceptível através das mãos e dos pés, foi desenvolvida enquanto um inovador interface de acessibilidade a pensar em pessoas com deficiência auditiva e Surdas.
Acreditamos que este revolucionário dispositivo, pensado somente para o Museu Nacional da Música, pode vir a servir de lembrete para que outros museus ampliem as formas multi-sensoriais de experienciar as suas obras ou espaços e alegramo-nos por questionar a fruição que uma pessoa com deficiência auditiva pode ter num museu com sons.
O júri atribui uma Menção Honrosa ao projecto “Som Táctil”, de autoria de Simão Costa, P06 Studio e SSArquitectura, pela sua originalidade, inovação tecnológica e saudável questionamento de preconceitos e paradigmas.
JAT – Janela Aberta Teatro: Teatro Comunitário
Desde 2018 que a JAT – Janela Aberta Teatro, companhia de teatro farense, com os seus colectivos de Teatro Comunitário: o Grupo de Teatro de Quarteira e o Grupo de Teatro de VizinhEs de Faro, tem vindo a combater a exclusão social, a discriminação, a criminalidade e certas doenças mentais com o seu teatro feito de, para e com todas as pessoas. Constatar que o Algarve, actualmente, é uma região na qual a violência, o extremismo e a segregação co-existem por entre mais de 60 nacionalidades e culturas diferentes (e onde os próprios valores sociais democráticos são questionados e deturpados diariamente), faz-nos aplaudir a missão deste projecto que potencia momentos de cidadania, reflexão e pertença.
Pelo seu compromisso em agregar gentes, culturas e territórios, em criar uma comunidade respeitada e valorizada, em devolver uma identidade à população através da qual todos têm direito à sua expressão artística – independentemente de género, idioma, cultura, condições físicas, financeiras ou sociais – louvamos os grupos de Teatro Comunitário da JAT, que nos vêm confirmar esse fundamental agente de mudança que é a Arte e, neste caso particular, o Teatro.
Os membros do júri:
Catarina Medina, directora de comunicação
Isabel Bastos, Museóloga
Joana Reais, Cantora, Pesquisadora, membro da Direcção da Acesso Cultura
Lisboa, 17.6.2026
