O relato final de Joana Tadeu Guerra na nossa conferência anual, cujo tema este ano foi “Emergência Climática: e a Cultura?”.

A emergência climática é uma crise existencial.  Põe em risco não só os sistemas naturais de que depende a nossa sobrevivência, mas também as estruturas culturais que sustentam as nossas vidas (ninguém quer só sobreviver). Para enfrentá-la, é essencial entender o que a nossa cultura – portuguesa, europeia, colonialista, industrializada, comodista, que se ouve à volta da mesa e se consome no sofá – diz sobre esta crise.

A nossa cultura vê a emergência climática como “normal” e “inevitável” — um subproduto da modernidade e do progresso. O preço que pagamos pela vida que o sistema que a criou nos disse que merecemos.  Mas a cultura muda, como nos lembraram as ativistas que estiveram em palco, já mudou tantas vezes. E a produção cultural pode abrir caminhos para futuros imaginários, em que a vida pode ser mais digna e mais bela, sem custos que ponham a própria vida em causa – como nos lembrou o António Brito Guterres, “precisamos de ter direito ao imaginário para existirmos social e politicamente.”

Na cultura dominante (ou talvez dominadora), por muito que os media sejam acusados de catastrofismo – afinal, desastres dão audiência – a emergência climática é praticamente invisível, pois são-lhe minimizados ou distorcidos os impactos e as responsabilidades; na política, trata-se a sustentabilidade como um luxo acessível apenas a algumas e que afasta outras das suas cidades. O crescimento económico é priorizado, o consumo é glorificado e a dependência de combustíveis fósseis cresce, como nos lembrou Sinan Eden. Mas a cultura muda. E a produção cultural pode documentar os impactos, denunciar os culpados, desmistificar as falsas complexidades, mostrar as soluções.

A cultura dominante (ou talvez dominadora) ignora, não raras vezes, o impacto desproporcional que a crise climática tem em comunidades vulneráveis: sempre as mais afetadas, mesmo tendo contribuído muito pouco, ou nada, para o problema. A questão da emergência climática não se limita à justiça ambiental; estende-se à justiça social e à justiça cultural – porque nem todas as culturas contribuem da mesma forma para o problema e para as soluções. Como disse a Vânia Gala, “a cultura hegemónica é racista e extrativista e ninguém está a descolonizar; só a diversificar”. Mas a cultura muda. E a produção cultural pode dar voz às comunidades marginalizadas e colocar no centro da discussão aqueles que são sistematicamente ignorados. Mais: qualquer pessoa pode produzir cultura (!), e como disse Maret Anne Sara na primeira apresentação da conferência, “a arte é uma arma vital quando a nossa guerra é invisível”.

A cultura dominante (ou talvez dominadora) resume a sustentabilidade a números, objetivos económicos, painéis solares, metas de emissões, “tudo medindo para nada mudar”, como denunciou a Vânia Rodrigues esta manhã. Mas a cultura muda. E a produção cultural pode fazer da emergência climática sujeito em vez de material.

A cultura dominante (ou talvez dominadora) faz uma aceitação tácita da destruição dos sistemas naturais que suportam a vida na Terra. Como denunciou Sinan Éden, “produzimos e reproduzimos a normalidade hegemónica cultural”. Mas a cultura muda. E a produção cultural pode (e deve!), como disse a ativista Sara Gaspar, “declarar emergência climática.”

Vânia Rodrigues lembrou, de manhã: “nós não somos o problema”. E não somos: a culpa carbónica individualizada é um jogo de poder criado pelo lobby fóssil em que a casa ganha sempre. Mas, ao mesmo tempo, como disse Sinan Eden, de tarde, “este problema é nosso”.

Ana Maria Valinho alertou para a “distância emocional e pessoal” que as pessoas sentem em relação à emergência climática: narrativas que se concentram apenas no catastrofismo têm o risco de paralisar as pessoas, mergulhando-as num sentimento de desespero e impotência; por outro lado, narrativas demasiado otimistas que exaltem soluções que não endereçam os problemas que a ciência já se cansou de nos apontar – precisamos de dar um fim ao fóssil – criam falsas sensações de segurança.

Qualquer intervenção cultural sobre a emergência climática é, por isso, um exercício difícil de equilíbrio entre a dura realidade e a necessária esperança para não desistirmos da ação. Estamos aqui muitas disponíveis para vos ajudar a encontrar esse balanço, em ímpeto e em paridade.

A ciência já fez tudo o que podia: apontou-nos os problemas e deu-nos as soluções. A política está nas mãos de uma pequena elite que beneficia do status quo – tal como o financiamento de que dependem tantos produtores culturais. Mas a cultura? A cultura tem o poder de construir pensamento, transformar a opinião pública, e gerar a ação coletiva necessária dentro dos limites dos valores democráticos.

Muito falamos, todas as que temos a lata de nos autoproclamar “ativistas”, das ferramentas democráticas para a participação. Mas a democracia, conforme a conhecemos, tem duas enormes limitações práticas no combate contra a emergência climática: o tempo e o território. A emergência climática é global – mas não é universal (!), como frisou a Vânia Rodrigues em debate, num pensamento importante sobre as desigualdades sociais – e é intergeracional, em responsabilidades e em significados. A democracia, sabemos todas muito bem, opera em lógicas nacionais e de curto-prazo com base em preocupações eleitorais. Já a cultura transcende fronteiras e gerações. Liga-nos ao passado – em responsabilidades e em significados – e projeta-nos o futuro – outra vez: em responsabilidades e em significados.

Num momento em que a democracia é testada por múltiplas crises – incluindo a climática, que exige políticas aparentemente, repito: a-pa-ren-te-men-te, impopulares, das quais os eleitores de hoje não verão os resultados e cuja urgência contrasta com a lentidão dos processos democráticos – , é bem possível que a cultura seja, objetivamente, a melhor arma para enfrentar a emergência climática. Se não liderarmos este movimento com criatividade e paixão, corremos o risco de perder não só o planeta, mas a justiça e a liberdade.

Para quem ficou com vontade de aprofundar o conhecimento e explorar mais sobre o papel da cultura na luta contra a emergência climática, a Acesso Cultura disponibilizou uma lista de recomendações bibliográficas.

Para quem ficou com vontade de participar nos esforços de disrupção, pronúncio e projeção, deixo o convite para a manifestação “Parar Enquanto Podemos”, que acontecerá no dia 23 de novembro, às 15h, em Lisboa. É uma ação de mobilização em jeito de apelo a toda a sociedade para que pare de consentir com a destruição do planeta e venha construir uma mudança urgente e justa. E ainda vão a tempo de participar nas assembleias que estão a preparar esta ação com as vossas imaginações, a vossa criatividade, a vossa arte, as vossas ideias e opiniões.

Durante a conferência, houve um momento de confronto direto entre ativistas climáticos – que recentemente atiraram tinta a monumentos e obras de arte (“de que nos servem se a Humanidade passar à história?”, perguntava Ana Maria Valinho) – e artistas, arqueólogos e programadores culturais. Foi um debate desconfortável, mas sobretudo, profundamente positivo, pois expôs tensões importantes. Todas as presentes reconhecem que a emergência climática é real, mas poucas compreendem plenamente de que forma ela nos afeta diariamente. Simultaneamente, todas concordamos que a emergência climática deve ser enfrentada, ou não estaríamos aqui, mas a maioria de nós só está disponível para uma luta que não afete diretamente as nossas vidas, o nosso trabalho, as nossas instituições.

Esse embate obriga-nos a repensar o que significa, de facto, agir com a urgência e distinção que esta crise existencial exige.

Assim, termino com perguntas às quais espero respostas de todo o setor da cultura: Estão prontas para fazer da cultura o quarto pilar da sustentabilidade? Que tamanho tem a vossa ambição? O que estão dispostas a fazer para “pararmos, enquanto podemos?

(Não, não há conforto possível. Há muito trabalho criativo e esperançoso para fazer.)

21 de Outubro 2024, Fábrica das Palavras, Vila Franca de Xira