O poema lido por Lua Eva Blue no dia 21 de Outubro de 2024, na nossa conferência anual, cujo tema este ano foi “Emergência climática: e a Cultura?”

O meu nome é Lua, sou da Póvoa deste concelho, sou licenciada em História da Arte, e de momento trabalho como assistente de sala num museu. Eu lido com as minhas ansiedades e conflitos fazendo arte como textos e poemas então propus iniciar a intervenção de pessoas do Climaximo com algo cuja escrita iniciei numa hora quieta enquanto trabalhava e soube da pena de prisão de 5 ativistas britânicos – o grupo Whole Truth Five da Just Stop Oil – após um jornalista conservador se infiltrar numa chamada ligada desobediência civil. Originalmente escrevi em inglês (porque grupos de resistência pedem muito poemas para os ativistas na prisão, que são agora dezenas de pessoas) e o seguinte é uma tradução imperfeita:

Justaposições d’uma mente Ativista-Trabalhadora

40 Horas por semana no museu,
a dizer às pessoas para terem cuidado com as peças

Em momentos de ironia que não me escapa,
Leio sobre desobediência civil nas horas quietas;
e de livro na mão, título parcialmente escondido,
Digo às pessoas que vigio,
para não passarem uma linha negra, desenhada no chão

Sentada na cadeira alta, um Salvador Dali ao lado de mim
Vejo notícias sobre mais ativistas climáticos condenados à prisão

E perguntou-me se os visitantes usam arte
como escape momentâneo de um planeta em colapso
ou se a arte os torna passivos perante este mundo
E digo “Desculpe, cuidado com a linha”
(Onde se traça a linha nesta dualidade?)

E questiono-me como lidar com o assombro de ser uma pessoa inteira:
A quietude destas salas deixa esta artista inspirada,
esta trabalhadora de museu aliviada,
esta ativista inquieta
Encaro estas justaposições da mente,
movo-me e exclamo “Por favor não toque”

(Arte tem todas estas capacidades:
Proteger, envolver, intervir, até entreter,
mas também de domesticar, limitar potenciais,
limitando-nos ao mero reconhecimento de um problema
– “olha esta obra deste artista marginalizado, fazes a tua parte por olha-la,
a estrutura que o oprime agradece-te se meramente sentires compaixão –
pois assim não o atacas.

Ó, Arte! Ó Cultura! porque é que licenciar-me na tua história
me ensinou que tenho de pensar em ti como és
e não como artistas e apreciadores falam de ti?
Porque é que há propaganda
– inclusive de museus –
que nos diz que mudar o mundo é tua capacidade inerente?

Quantos artistas já morreram
E quanto material se degradou
Antes de começarmos a exclamar
“Não há arte num planeta morto”

Mas, Arte, a caixa de Pandora que te abalou o mundo
não foi morte literal de artista
e no que toca a património material:
Não foi degradação por maior variação de temperaturas
entre dias e noites, ou de ciclos de derretimento,
ou acidificação oceânica, ou descongelamento de degelos,
Ou fogo sedento ou cheias abrasadas
A caixa de Pandora que te abalou o mundo
Foi sopa em vidro e farinha em pedra.

Então como posso dizer que não funciona
(E não queria que funcionasse)
Quando conheço as conferências a que os ativistas levaram?
Quando no meu círculo social, só começaram a falar
quando VanGogh se tornou num símbolo de resistência climática?

(Pois não somos nós as filhas de Fluxus
que nos ensinaram a promover a realidade que não é arte?

Respondo as questões dos visitantes enquanto sei
que algures amigas bloqueiam uma estrada
E na quietude protejo um Picasso
quando as minhas queridas são detidas em desobediência
Contra a verdadeira maior ameaça às nossas heranças.

E penso que quero que todos passemos
as linhas metafóricas de dentro de nós –
Essas linhas dos riscos que nos bloqueiam
As ultrapassamos temendo e encarando
respostas vindas de nós mesmas:

Sabendo o que sabes o que é que vais fazer?
Ainda há arte num planeta a morrer.”

Lua Eva Blue