Falar sobre a Mickaella Dantas nunca foi uma tarefa simples.
Há pessoas cuja dimensão ultrapassa os factos, os currículos, os prémios e os palcos. Há pessoas que se transformam em presença, em memória coletiva, em legados vivos. A querida Mickaella é uma dessas pessoas. Sim, no presente, já que a Mickas vive em cada um de nós, vive no seu legado e também, vive nesta bela e importante iniciativa da Acesso Cultura, entidade que reverencio pela importância das suas ações e agradeço por este “convite envenenado” que, obviamente, não podia recusar por “quinhentos motivos”. Acesso Cultura, obrigado por esta dose de emoção que – também – me faz relembrar que estamos vivos.
Quando a vi no palco pela primeira vez, na Madeira, integrando o elenco da Roda Viva Cia. de Dança, que tinha criado anos antes em Natal, foi paixão à primeira vista. Disse que era belíssima em cena e à diretora da companhia, referi: “sinto muito, vai perder uma bailarina”.
Foi um namoro à distância, durou algum tempo, até que a Mickaella me conta que brevemente voaria para Londres. Teria uma primeira conversa com a CandoCo Dance Company, queriam-na como intérprete da companhia. Não tive a mínima dúvida, propus um encontro, voei até ao Reino Unido e conversamos pessoalmente, num espaço minúsculo, na receção do local onde ela estava hospedada. Feito pessoa traída disse algo como, “depois de tanto tempo a dedicar o meu amor exclusivamente a você, como é possível que tenha a coragem de fazer uma coisas dessas? Vai mesmo me trocar? Vai casar com outro que acabou de conhecer e nem sabe bem quem é?”. Amuamos…
Meses mais tarde, depois de ultrapassar um período onde a carga burocrática foi duríssima, a pessoa que me atendia no Instituto de Emprego da Madeira pergunta: “ultrapassado o período de divulgação para que eventuais candidaturas nacionais e europeias pudessem aceder à vaga, podemos avançar com os documentos para a contratação da bailarina extra-comunitária. O local de trabalho é o Fugitivo, certo? Já tenho os dados”. Incrédulo, olho e respondo: “não, esta mulher brasileira não é uma profissional do sexo. Ela é bailarina e o local de trabalho é a Dançando com a Diferença”.
Anos mais tarde, numa conversa super divertida a Mickaella me disse, cheia daquele sotaque que lembrava a casa, a família, no Rio Grande do Norte: “Oxe… imagine lá se painho sabe que vou usar este figurino… olhe para isto, rapaz… E ainda por cima, se soubesse que eu até poderia estar a trabalha no Fugitivo?!?! Era o fim”.
Hoje, quando falamos dela, falamos de uma artista extraordinária. Falamos de uma mulher que nasceu em Cruzeta, no interior do Rio Grande do Norte, e que conquistou muitas pessoas através da sua dança, “através do seu corpo e não apesar do seu corpo”, como eu já referia nos idos de 2002.
Falamos de alguém que apresentou o seu trabalho em inúmeros países, que dialogou com grandes criadores, que inspirou intérpretes, que – sem dúvida nenhuma – ajuda a redefinir a forma como o corpo é visto na arte contemporânea.
Mas eu gostava de começar por outro lugar, gostava de falar de dificuldades, já que todo o legado desta artista incrível não foi construído “apesar das dificuldades e sim através destas”.
Vivemos numa sociedade que gosta de celebrar os vencedores, mas que muitas vezes esquece o preço das vitórias. E Mickaella conheceu esse preço muito cedo. Pagou com a sua perna, numa decisão difícil para uma criança. Decidiu sempre apoiada por país que souberam ouvi-la – também – naquele momento.
Se quisermos relembra-lo de uma forma metafórica, este momento pode ser visto como uma viagem de caminhão entre o Rio Grande do Norte e São Paulo. Dias e dias naquela boleia a desbravar estradas em péssimas condições, a lutar contra o cansaço mas com espaço para a boa música, para as conversas, para as aprendizagens da vida. Subir e descer serras, atravessar planícies e manter a atenção a tudo. Deviam ser assim aquelas viagens. “Mainha e painho tiveram uma coragem imensa, dizia. Eu? Eu tinha de ter a mesma coragem, cedo percebi que era importante viver”.
Mickaella Dantas,
Conheceu o preconceito.
Conheceu a dúvida dos outros.
Conheceu os olhares que viam primeiro a deficiência e só depois a artista.
Conheceu as portas fechadas.
Conheceu a exclusão.
Conheceu a solidão que tantas vezes acompanha aqueles que ousam ocupar lugares onde o mundo insiste em dizer que não pertencem.
E, no entanto, nunca aceitou que a sua história fosse escrita pelos limites que lhe atribuíam.
Transformou cada obstáculo em matéria artística.
Transformou a vulnerabilidade em potência.
Transformou a diferença em linguagem.
Transformou o corpo em manifesto.
E é precisamente aí que reside a grandeza do seu percurso.
Mickaella Dantas nunca procurou provar que era igual aos outros.
Procurou mostrar que a diferença tem valor.
Que cada corpo contém um universo próprio.
Que a arte não existe para normalizar as pessoas, mas para revelar a singularidade de cada uma delas.
Essa é uma lição que continua profundamente atual.
E talvez seja essa a razão pela qual o seu trabalho atravessou fronteiras geográficas, culturais e artísticas.
Porque aquilo que Mickaella nos oferece não é apenas dança.
É uma reflexão sobre humanidade.
É um convite para revermos as nossas certezas.
É uma oportunidade para questionarmos quem incluímos, quem excluímos e porquê? Que inclusão é esta? É mesmo necessária?
Mickaella Dantas, é – ainda hoje – uma proposta de futuro.
Um futuro onde a diversidade não é tolerada.
É celebrada.
Um futuro onde a diferença não é um problema a resolver.
É uma riqueza a reconhecer.
Foi precisamente por isso que a sua relação com a Dançando com a Diferença se tornou tão especial.
Ao longo dos anos, tivemos o privilégio de partilhar caminhos, projetos, encontros, sonhos e inquietações, como já fui dizendo.
A Mickaella nunca foi apenas uma artista convidada ou uma parceira de trabalho.
Foi uma referência.
Uma inspiração.
Uma cúmplice na construção de uma visão da dança que coloca as pessoas antes das categorias, uma cúmplice difícil de lidar naqueles momentos em que a leoa vinha à tona.
Mickaella Dantas, é a artista que coloca a criação antes dos rótulos.
Que coloca a liberdade antes das convenções.
A sua presença ajudou-nos a compreender melhor quem éramos.
E ajuda-nos, também, a olhar para quem somos e a imaginar quem poderíamos vir a ser.
Muitas das conversas que tivemos não eram apenas sobre dança.
Eram sobre vida.
Sobre resistência.
Sobre dignidade.
Sobre o direito de ocupar espaço.
Sobre a importância de permanecer fiel àquilo em que acreditamos, mesmo quando o caminho parece impossível.
Sobre a importância de percebemos se os ataques recebidos dizem mais sobre nós ou sobre quem nos ataca.
Há artistas que deixam espetáculos.
Há artistas que deixam obras.
Há artistas que deixam memórias.
Mickaella deixa tudo isso.
Mas deixa algo ainda maior.
Deixa uma mudança de paradigma.
Deixa uma transformação na forma como pensamos o corpo na arte.
Deixa uma herança que continuará a influenciar criadores, investigadores, programadores e públicos durante muitas décadas.
E deixa, sobretudo, uma marca profunda nas pessoas que tiveram a sorte de a conhecer.
Porque quem conheceu Mickaella sabe que o seu impacto não se media apenas pela qualidade do seu trabalho.
Media-se pela intensidade da sua presença.
Pela sua capacidade de afetar os outros.
Pela forma como nos fazia acreditar que a arte pode ser um instrumento real de transformação social.
Hoje, ao celebrarmos o seu percurso, não devemos cair na tentação de construir uma narrativa perfeita.
Porque a sua história não é perfeita. É humana, feita de conquistas e de fracassos, de força e de fragilidade. De amor.
Há ainda, nesta história, a esperança, o cansaço, os limites do corpo e a sua efemeridade.
E é precisamente a humanidade que torna o seu legado tão poderoso.
Porque Mickaella nunca representou a ideia de um herói inalcançável.
Representou a possibilidade de cada pessoa transformar a sua própria realidade.
Representou a coragem de existir plenamente.
Representou a beleza de ser quem se é.
Em nosso último encontro falávamos, mais uma vez, sobre documentos e procedimentos: “Os documentos estão em ordem? Deixou as senhas das suas contas? A casa, tudo certo com o financiamento? Há algum seguro da casa?, perguntei enquanto nos olhávamos. Ao final, Mickaella inspirou profundamente e o seu olhar se transformou, não consigo me esquecer. Foi a vez dela perguntar: “ Está a me dizer que eu vou morrer? É isso, é?”. Não menti e repondi, estou a pedir para pensar que estas informações são importantes para a Catarina e o Gonçalo. O que vai acontecer depois disso, logo saberemos”. Despedi-me e saí.
Por isso, quando hoje falamos de Mickaella Dantas, não estamos apenas a recordar uma artista.
Estamos a afirmar uma visão do mundo.
Uma visão onde todos os corpos têm lugar.
Onde todas as vozes importam.
Onde a arte é um espaço de liberdade e não de exclusão.
Uma visão que ela ajudou a construir e que agora nos cabe continuar.
E talvez a melhor forma de honrar o seu legado seja exatamente essa:
continuar.
Continuar a abrir portas.
Continuar a desafiar preconceitos.
Continuar a criar oportunidades.
Continuar a defender uma arte (e uma sociedade) onde ninguém precise pedir autorização para existir.
Porque foi isso que Mickaella fez durante toda a sua vida.
E porque, graças a ela, o mundo da dança tornou-se mais amplo, mais diverso, mais justo e mais belo.
Obrigado, Mickaella.
Por tudo o que criaste.
Por tudo o que transformaste.
E por tudo aquilo que continuará vivo através de nós.
Muito obrigado e… e agora? Agora é festa? Todos à casa da Mickaella porque ela gosta é de festa.
Discurso proferido na cerimónia de entrega do Prémio Acesso Cultura – Mickaella Dantas 2026.
Lisboa, Museu do Dinheiro, 17.6.2026
